10 de junho de 2018 às 02:00

Amazônia Soul leva sabores de Belém à Vila Mariana

Galeria Amazônia Soul não cede a paladares delicados Restaurante na Vila Mariana aposta em sabores fortes do Brasil https://fotografia.folha.uol.com.br/galerias/nova/1602741853118558-amazonia-soul-nao-cede-a-paladares-delicados  

Na semana devagar e bem parada, apesar de morar num bairro com um dos últimos ônibus elétricos que circulam em São Paulo â?”o querido Machado de Assis/Cardoso de Almeidaâ?”, fiz a opção de comer a pé, em lugares em que podia chegar andando.

Há uma frase do Ivan Lessa que repito sempre (sem achar exatamente de onde, vai de memória): “A vida não é curta, a vida é perto. São alguns quarteirões e uma dezena de pessoas que frequentamos”. É meu ideal de vida.

Já explorei bem a minha região e escrevi sobre alguns lugares favoritos (o coreano Bicol, o bar Veloso, o China Garden, todos excelentes) e acabei descobrindo um de comida amazônica. 

Sou grande fã de Belém do Pará, a cidade mais exótica que já visitei. Um planeta culinário totalmente separado do resto do mundo, com aqueles peixes fora do comum, as alas inteiras de farinhas do Ver-o-Peso, o tacacá quente no calor escaldante, a umidade inacreditável o tempo todo, os sorvetes de frutas misteriosas.

Estive lá só uma vez, mas o “espírito do lugar” me habitou: andar na rua, além das surpresas, era como nadar no ar quase tátil. O hotel tinha carpetes empapados de água, as mangueiras gigantescas cercando o implausível teatro, um mundo Fitzcarraldo, uma tensão meio de delírio febril.

Era um tempo pré-internet, o que tornava a viagem â?”ainda mais ao remoto do mundoâ?” no limite entre civilização e selva (tenho muita imaginação). Ver um pirarucu vivo, na sua tranquilidade bovina e ancestral, boiando na Fundação Goeldi nunca me saiu da memória. Ainda não tinha reencontrado os sabores daquela viagem.

O Amazônia Soul conseguiu me tirar de São Paulo e satisfazer a vontade. Achei a comida intransigente, sem ceder aos caprichos de nosso paladar delicado. Estão lá a goma calórica do tacacá, a acidez e estranheza do tucupi, delicioso como molho para o filhote grelhado e o arroz de jambu.

A gula foi maior que o estômago e ainda dei conta de meia porção de maniçoba. Tudo de verdade, até onde posso julgar estes valores. E os deliciosos sorvetes da Cairu, casa com meio século de idade. Na sobremesa, avancei em cupuaçu (que tem gosto de gás, como as trufas), açaí e bacuri.

Se fosse considerar vinhos, nada mais inóspito para eles que a anestésica ação do jambu. O que combinar com tais pratos que reúnem tudo que repudia os vinhos? Resumi a resposta na ideia de beber portugueses da uva loureiro (explico abaixo).

AMAZÔNIA SOUL
Onde: r. Áurea, 361, Vila Mariana, tel. 5083-4046.
Quando: de ter. a dom., das 12h às 23h.

Toda uva vinífera pode alcançar grande dignidade. Por causa de vinhos feitos em grande escala, para consumo rápido, algumas variedades ficaram com fama de simples, a gamay dos Beaujolais, a bonarda argentina e a loureiro â?”uma das castas da região dos Vinhos Verdes portugueses, refrescantes, fáceis de beber.

Mas alguns produtores do Minho â?”sua origem no Norte de Portugalâ?” tratam a loureiro com os cuidados que merece. Um deles é Pedro Araújo, da Quinta do Ameal. Curiosidade: ele é bisneto de Adriano Ramos-Pinto, que todo mundo já viu em garrafas de vinho do Porto. 

Sou grande admirador de seu trabalho, um obsessivo da loureiro. Seus vinhos são todos muito bons e quase todos só de loureiro (o nome vem mesmo da folha de louro, aroma que costuma aparecer na bebida). 

Cismei que os Quinta do Ameal enfrentam bem a comida paraense, pois acho que têm força para isso. Os Ameal são complexos, com corpo, traços variados que vão de mel a flor de laranja. 

Uma vez, uma leitora perguntou se entrava tudo isso no líquido. Então, explico: são aromas que a garrafa aberta apresenta, a graça do vinho é esta multiplicidade de cheiros e sabores. Não é uma infusão de ervas, mas a própria uva fermentada se exibindo. E quanto mais velhos, mais deliciosos ficam.

Fonte: FOLHA

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