12 de julho de 2018 às 02:00

Assédio na Copa lança luz sobre violência espalhada contra mulheres russas

Os monstros na mira de Alena Popova estão muito longe de ser como os gigantes que Dom Quixote confundia com moinhos de vento, mas sua batalha contra o assédio e a violência sexual na Rússia às vezes é tão frustrante quanto as do cavaleiro da triste figura

Os monstros na mira de Alena Popova estão muito longe de ser como os gigantes que Dom Quixote confundia com moinhos de vento, mas sua batalha contra o assédio e a violência sexual na Rússia às vezes é tão frustrante quanto as do cavaleiro da triste figura.

Num café perto de um tribunal em Moscou, onde ela se defendia de acusações de organizar mais um protesto, a ativista russa lembrou os delírios desse clássico da literatura espanhola ao falar de anos de militância pelos direitos da mulher em seu país sob o comando de Vladimir Putin.

“Temos os nossos direitos, mas precisamos de proteção e igualdade, precisamos ter uma voz”, diz Popova. “Só que às vezes tenho a sensação de estar brigando com moinhos.”

Um rosto â?”bem maquiado e emoldurado por cabelos platinadosâ?” conhecido das autoridades russas, Popova se tornou popular também entre brasileiros na Copa do Mundo quando lançou um abaixo-assinado denunciando o grupo de torcedores da camisa verde e amarela que insultou uma mulher na rua com um coro de obscenidades machistas.

O documento exigindo a punição dos rapazes que aparecem no vídeo gritando “boceta rosa” e “essa é bem rosinha” em torno de uma garota que repetia as frases sem saber seu significado já tem mais de 85 mil assinaturas e embasa o pedido de Popova para que o governo russo abra inquérito sobre o caso.

Na tela do celular, ela mostra a confirmação de recebimento de sua denúncia protocolada pelo Ministério do Interior, que tem um mês para decidir se vai punir ou não os brasileiros â?”eles podem ser multados em cerca de R$ 180 ou pegar até 15 dias de detenção se não foram embora do país.

Mas Popova esclarece que o seu objetivo nunca foi multar ou prender esses garotos, algo pouco provável de acordo com diplomatas da embaixada brasileira na capital russa.

Ela vê todo o episódio, no entanto, como uma forma de chamar a atenção para a impunidade do assédio sexual num dos países mais perigosos e violentos do mundo para suas mulheres.

Dados com base nos escassos boletins de ocorrência registrados por essas vítimas mostram que pelo menos 16 milhões de russas sofrem com a violência doméstica a cada ano, quase o triplo do Brasil.

“Não é só por causa do sexismo deles”, ela diz, sobre os fãs brasileiros. “Eles detonaram um movimento que pode levar a linchamentos e assassinatos de qualquer mulher aqui que se relacione com um estrangeiro. Não somos protegidas por nossas próprias leis.”

Ela lembra, no caso, os grupos de extremistas surgidos nas redes sociais de seu país que pregam violência contra as russas vistas com estrangeiros. Batizados Boceta Rosa, por causa do vídeo que viralizou, esses grupos chamam de “vadias que humilham a pátria” as mulheres que se tornaram vítimas de torcedores.

“Existe uma cultura aqui de culpar a vítima”, diz a ativista. “Eles acabaram com a vida daquela menina. Imagino que esteja se sentindo muito mal, porque ela apagou todos os perfis que tinha nas redes sociais. É uma situação terrível.”

O caso desses torcedores não foi um episódio isolado nesta Copa, que também viu argentinos, peruanos e outros agindo de forma semelhante.

Mas um efeito colateral do maior torneio de futebol do mundo também foi lançar luz sobre um quadro de violência generalizada contra as mulheres na Rússia, que não criminaliza o assédio sexual nem a violência doméstica a não ser em casos extremos e, segundo Popova, faz vista grossa para casos de estupro.

Irina Kovalenko, por exemplo, é uma funcionária pública vítima de assédio sexual que se juntou aos esforços de Popova. Quando denunciou os avanços do chefe, foi demitida por justa causa, e a procuradora do caso deu razão para o abusador, e não à vítima, dizendo que era melhor desistir de seguir com o processo.

“Ela [procuradora] agiu como um cão de guarda da empresa pública”, conta Kovalenko. “E o pior é que ele [ex-chefe] sabia que eu era casada e até falava com meu marido.”

Sem apoio nem mesmo de suas amigas, que diziam que ela não poderia provar o ocorrido, Kovalenko então deixou Murmansk, a cidade no norte do país onde vivia, e se mudou para Moscou enquanto espera seu caso ser julgado por uma instância superior da Justiça.

No dia em que deu esta entrevista, Popova, também às voltas com juízes, deixava uma audiência no tribunal em que brigava para não pagar multa por protestar contra Leonid Slutsky, um político acusado de assediar uma série de jornalistas mulheres. 

Em abril, a ativista foi detida por algumas horas depois de aparecer diante do Kremlin com uma imagem de papelão de Slutsky e cartazes denunciando o seu comportamento. Foi a sexta vez que Popova foi parar numa delegacia por orquestrar manifestação.

Isso não parece mudar sua atitude. Ex-jornalista política formada em direito e com histórico de aparições na TV empunhando a bandeira feminista, Popova conhece muito bem as leis da Rússia de Putin.

Ela sabia, por exemplo, que não podia armar um protesto em massa diante do Kremlin, porque atos dessa natureza no país dependem de rara autorização expressa do governo. Então ela e outras mulheres que decidiram se manifestar mantiveram distância umas das outras, mas a polícia entendeu que todo o ato fora organizado por ela mesma.

“É terrível como as mulheres no nosso país são tratadas só como objetos”, diz Nastya Alekseeva, outra ativista que esteve no ato contra o político. “Perco a esperança às vezes, mas eu sei que, se existem outras mulheres como eu, deve haver mais delas que ainda não estejam preparadas para discutir esses assuntos agora.”

Uma palavra-chave da discussão, no caso, continua um tabu na Rússia. Alekseeva, por exemplo, evita se dizer uma feminista porque o termo “desperta associações negativas”.

“Mulheres aqui no nosso país detestam a palavra feminista”, diz Popova, lembrando que não concorda com elas. “Muitas pensam que ser feminista quer dizer odiar homens ou brigar pela morte deles.”

Feministas declaradas ou não, Popova e outras mulheres que sonham com uma Rússia menos machista dizem só querer a mesma proteção garantida aos homens no país.

“Eles são protegidos pelo sistema, enquanto nós ainda precisamos lutar contra o sistema para nos proteger”, compara Popova. “Só queremos que  a Constituição trabalhe a favor da gente, não contra a gente.”

Fonte: FOLHA

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