18 de maro de 2018 às 02:00

Bairro que mais cresce, Tatuapé lida com mudanças e jeito de cidade pequena

Da portinha de garagem, o cheiro de coelho ensopado invadia a rua de terra. Era o convite para que vizinhos logo aparecessem para se lambuzar com o prato, petiscar um pouco de bacalhau e de pernil ou só tomar aquele gole de cachaça apoiado no balcão.

BRUNO MOLINERO
SÃO PAULO

Da portinha de garagem, o cheiro de coelho ensopado invadia a rua de terra. Era o convite para que vizinhos logo aparecessem para se lambuzar com o prato, petiscar um pouco de bacalhau e de pernil ou só tomar aquele gole de cachaça apoiado no balcão.

O ano é 1964, e o casal Manuel e Arminda tinha acabado de abrir o bar, no coração do Tatuapé. Ex-vendedor de berinjelas na feira, o português não teve dúvidas na hora de batizar o empreendimento da família: resolveu homenagear o vegetal e o apelido que ganhara. Nascia ali o Bar do Berinjela.

Mais de 50 anos depois, a portinha segue aberta –embora já sem a cara de pé-sujo.

O espaço foi ampliado, ganhou mesas, diversificou petiscos e se esforça para atrair vegetarianos, veganos e um público de paladar exigente. Da cozinha, saem fumegantes parmegianas, bolinhos, escondidinhos... Tudo feito com os cerca de 200 quilos de berinjela que recebem todas as semanas.

O bar é um dos reflexos da transformação por qual todo o Tatuapé vem passando nos últimos anos. De acordo com levantamento feito pelo Grupo Zap VivaReal, o bairro é atualmente o que mais cresce na cidade –no total, 40 novos empreendimentos foram construídos por lá entre 2013 e 2017.

Mas esse crescimento é parecido com o de um adolescente em fase de estirão: enquanto algumas áreas mudam rapidamente, outras preservam características do passado. Ou as duas coisas ao mesmo tempo. Aqui e ali, comércios familiares convivem com lojas de luxo. Ambulantes vendem frutas na calçada e comentam sobre os carros importados que circulam. Sobradinhos dividem espaço com apartamentos que custam milhões.

"Mudou muito, principalmente com a chegada dos prédios do Anália Franco. Mas quem mora na região tem apego à história do bairro. Até quem não nasceu aqui acaba se envolvendo", acredita José Manuel Leitão. Filho do casal fundador do Berinjela, ele herdou o apelido do pai e toca o bar com a mulher, Débora Santarelli, e os filhos.

Os tais prédios do Anália Franco são uma série de empreendimentos de alto padrão que surgiram nos últimos anos. Recheados de espaços gastronômicos, piscinas cobertas, brinquedotecas e equipamentos típicos de clube, costumam ter metro quadrado de até R$ 17 mil –valor parecido com o de Moema e do Jardim Paulista. Com metragem média de 300 m², mas que pode ter até o dobro disso, as unidades passam dos R$ 5 milhões.

Para comparar, o metro quadrado médio no Tatuapé como um todo custa R$ 8.574, segundo o Secovi (sindicato da habitação).

A oferta de imóveis de alto padrão acabou atraindo um novo público. Para arquitetos e corretores ouvidos nas duas semanas em que a reportagem esteve na zona leste, esses novos moradores são principalmente pessoas que viviam em bairros próximos e aumentaram de poder aquisitivo, mas não quiseram viver longe dos amigos e da família.

O economista Eduardo Migliacci, 62, é exceção. Ele se mudou para o Anália Franco a fim de ficar mais próximo de onde trabalhava. "De Pinheiros até São Bernardo, onde estava a minha empresa, demorava uma hora e meia de carro. Às vezes, duas horas. Do Tatuapé, em 40 minutos estava lá."

Aposentado há um ano, resolveu continuar no bairro. "É uma região que tem tudo: bons restaurantes, parques, hospitais, um shopping excelente", diz.

DO LADO DE LÁ

Novos prédios não param de surgir. A construtora Porte, por exemplo, está levantando dois espigões: os edifícios Helen e Figueira, com 34 e 47 andares, respectivamente, e unidades que beiram os R$ 6 milhões.

"O bairro tem oportunidades de crescimento. Há muitos sobrados", diz Marco Antonio Melro, presidente da construtora, especializada em empreendimentos na zona leste. Oportunidades, sobretudo, do lado oposto ao Anália Franco. A área que fica entre a Radial Leste e a Marginal Tietê vem se tornando a menina dos olhos do mercado imobiliário.

Nesse outro Tatuapé, a sensação é de cidade do interior. Vizinhos se chamam pelo nome, casas têm portas que dão direto para a calçada e o horizonte não é tão vertical. Um clima de roça paira no ar, trazendo à memória o início do século 20, quando o cultivo de uvas nas terras da família Marengo estava a todo vapor. Ou quando, em 1698, Matheus Nunes de Siqueira fez uma casa de taipa com seis cômodos e dois sótãos –ainda hoje de pé e, 320 anos depois, batizada de Casa do Tatuapé, onde funciona um museu.

Com o parque do Piqueri ao lado, não é raro ouvir o canto dos pássaros. "No Ceret, a gente escuta menos. Mas a cancha de bocha de lá é bem melhor", compara Alfredo Barros, 74, conhecido como seu Alfredo. Tanto o Piqueri quanto o Ceret (área verde rodeada de edifícios que funciona como um Central Park do Anália Franco) mantêm pistas do esporte que é a cara da zona leste.

Mesmo a previsão de mais mudanças no bairro, entre elas a construção de um complexo que promete ser a "Berrini da ZL" (leia mais aqui ), moradores defendem que vai ser difícil abalar a identidade local.

"Os prédios não afastaram os clientes antigos. A turma do balcão segue aqui, cornetando as mudanças. Tinha que ver quando colocamos mais mesas no bar", fala o Berinjela.

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CONHEÇA O TATUAPÉ

Jogatina
Praças como a Silvio Romero e o largo Nossa Senhora do Bom Parto atraem moradores para partidas de dominó e de baralho. As canchas de bocha dos parques do Piqueri e Ceret também reúnem curiosos e moradores mais antigos.

Dois verdes
Com 97 mil m², o parque do Piqueri tem mais de 150 espécies vegetais. Aberto das 6h às 18h. Já o Ceret possui 286 mil m². Além de seis quadras de tênis, tem campo de rúgbi e quatro piscinas. Uma delas é a maior pública da América Latina, com 100 m de comprimento e 50 m de largura. Funciona das 6h às 22h (sáb. e dom., até 20h)

Crescimento
Em dez anos, a população aumentou 15,5%: foi de 79.381 habitantes (2000) para 91.672 (2010), segundo o IBGE

por Edgar Silva, do Banco de Dados

Fonte: FOLHA

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