06 de junho de 2018 às 02:00

Hagiográfico, longa sobre chef Alain Ducasse sugere trilha sem percalços

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Você conhece algo sobre Alain Ducasse, chef francês (naturalizado monegasco) que é o segundo mais premiado do mundo? Se não conhece, eis a chance de saber um pouco sobre ele: o documentário “A Busca do Chef Ducasse”. 

O longa estreia no Festival Varilux de Cinema Francês na sexta-feira em São Paulo, que ocorre em quase 60 cidades do país dos dias 7 a 20 deste mês.

Mas vai saber exatamente isso, “um pouco”. Somente aquilo que o diretor (o prestigiado documentarista francês Gilles de Maistre) decidiu mostrar, sendo que ele é um tiete confesso do chef.

Quem já conhece algo não terá a chance de ver mais a fundo o trabalho, os desafios, a vida de um cozinheiro tão excepcional e de tamanha magnitude.

Ducasse tem 26 restaurantes em sete países (fora cafés e lojas), 21 estrelas no guia Michelin, além de livros, escolas e consultorias. Aos 61 anos, já não cozinha â?”ou, como diz, cozinha com a mente, idealizando menus.

Tornou-se um empresário. Viaja pelo mundo com um staff de presidente de multinacional, ou de chefe de Estado (como os que encontra no filme, almoçando com o presidente da França, batendo papo com o príncipe de Mônaco, sendo bajulado pelo presidente da Mongólia).

Tem um aparato de comunicação e de relações públicas capaz de blindar o que ele pretende esconder (começando por sua intimidade familiar) e filtrar o que ele deseja mostrar (furei o bloqueio certa vez, gravando com ele cenas interditadas... aparentemente foi indolor para todos).

O diretor ficou dois anos acompanhando seu ídolo. Mas filmando somente belos momentos. O caviar do filme são as muitas viagens do chef, sempre charmosas e com belas filmagens, seja em Versalhes, China, Japão ou Brasil.

Em meio a edificantes constatações do chef (que mostra sua crescente e pertinente preocupação com a saúde das pessoas e do planeta), não ficamos sabendo como é ser um cozinheiro negociando sua arte com poderosos sócios capitalistas; como é conciliar viagens constantes e a vida com mulher e filhos; como é conviver com a crítica e o fracasso (como o ocorrido com sua humilhante experiência em Nova York, nos anos 2000).

Nada disso é sequer mencionado no filme. Como se Ducasse se movesse sozinho vida afora, embalado por seus sonhos, numa trilha triunfante sem percalços.

Qualquer semelhança com a série “Chef?s Table”, da Netflix, seria parcialmente forçada.

“A Busca do Chef Ducasse” não tem o tom meloso da série americana (talvez porque a cinematografia francesa seja mais distante da estética publicitária que encanta o público americano). Mas algo têm em comum: no lugar de documentários, são hagiografias. 
 

Gilles de Maistre, pelo menos, o admite, citado na revista francesa L?Express: “Eu não queria fazer algo jornalístico. Algo sentimental e não investigativo. [O filme] não é totalmente ele [Ducasse], mas é a visão que eu tenho dele”.

Fonte: FOLHA

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