11 de julho de 2018 às 02:00

Montagem em São Paulo irradia dramaturgia frágil e estranho saudosismo

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"Caixa de Memórias" trata de diversas gerações de uma família em uma pequena cidade brasileira ao longo do século 20. A peça de José Eduardo Vendramini dedica especial atenção à sucessiva desagregação familiar e emocional, sem disfarçar um estranho saudosismo com a época na qual "a palavra do homem" valia tanto ou mais que uma assinatura.

Emana do texto a saudade de quando o homem estava mais conectado com a natureza e o trabalho. A nostalgia aponta um percurso desumanizante, mas também flerta silenciosamente com um espírito conservador.

Por mais verdadeira que seja o desamparo com a civilização atual, buscar alento em um passado mais puro sempre soa ingênuo.

Mas a encenação de Marcio Aurelio traz uma cena crítica e inteligente, um belo exercício de composição moderna. O palco se transforma num quadro em movimento em que atores criam imagens com gestos precisos e coletivos.

O trabalho de conjunto é marca da montagem e não surge só em movimentos corais e coreografados mas ainda em atuações com o outro, algo raro no teatro atual.

A qualidade de um ator como Walter Breda aparece também no empenho com que busca a verdade de se suas ações naqueles com quem contracena. Ele parece estar sempre atento aos companheiros de palco.

Todo o elenco parece engajado na coletividade. A encenação navega entre tempos, sobrepõe campos de percepção e é atenta ao gesto social das personagens, sem dar margem a afetações. A peça faz brilhar os momentos de maior sensibilidade do texto quando a ideia de "tempo" se impõe poeticamente.

É uma peça desigual. Se fica marcada por uma cena de enorme força, nunca deixa de irradiar uma dramaturgia frágil e saudosista.

Fonte: FOLHA

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