14 de junho de 2018 às 02:00

Seleção brasileira usa 'autoespionagem' para analisar erros e virtudes

Capitão do Brasil no amistoso contra a Áustria, realizado no domingo (10) o zagueiro Miranda recebeu em seu WhatsApp um vídeo do estilo de jogo da seleção assim que se apresentou na Granja Comary, no fim de maio. A situação se repetiu com os outros 22 jog

Capitão do Brasil no amistoso contra a Áustria, realizado no domingo (10) o zagueiro Miranda recebeu em seu WhatsApp um vídeo do estilo de jogo da seleção assim que se apresentou na Granja Comary, no fim de maio. A situação se repetiu com os outros 22 jogadores convocados para o Mundial.

É assim que funciona parte do trabalho dos cinco analistas de desempenho do Brasil na Copa do Mundo.

Diferentemente dos outros mundiais, a função, que era exercida por um "observador" ou "olheiro" e usada apenas para analisar os adversários, ganhou novo nome, métodos e ferramentas de trabalho. Agora, os jogos e os treinamentos da própria seleção brasileira são monitorados em tempo real.

Todos são filmados em vários ângulos, até pelo alto, e as imagens são repassadas por vídeo para Tite e seus auxiliares Cleber Xavier, Sylvinho e Matheus Bachi. Os quatro analisam erros de posicionamento e passes, além de virtudes, que poderiam resultar numa jogada de gol.

Softwares também são usados para mapear todos os dados dos jogadores --desde passes certos e errados até finalizações e posicionamento em campo--  nas partidas.

A captação das imagens é feita pelos analistas de desempenho Thomaz Araújo e Fernando Lázaro, coordenador do CPA (Centro de Pesquisa e Análise) da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) desde o início de 2017.

Lázaro, filho do ex-lateral direito Zé Maria, já trabalhou com Tite na função no Corinthians entre 2010 e 2016, quando o treinador deixou o clube alvinegro e assumiu a seleção.

"O Tite conversou comigo sim já, como imagino que tenha feito com quase todos os jogadores. Ele tenta manter um padrão de jogo. Ele me mostrou vídeos e situações, assim como tenho certeza de que também conversou com Fagner e com outros jogadores para todos ficarem cientes do que têm que fazer em campo", disse Danilo, que assumiu a vaga de titular da lateral direita após a lesão de Daniel Alves.

Na Copa do Mundo, Tite terá informações em tempo real sobre o comportamento da seleção brasileira dentro de campo. A Fifa aprovou no início do mês a utilização de um radiocomunicador entre membros da comissão técnica e treinadores.

O sistema se chama EPTS (em português, seria Performance Eletrônica e Sistemas de Traqueamento). O equipamento será usado pelas 32 equipes que disputarão o Mundial da Rússia.

A seleção testou o equipamento nos amistosos contra a Croácia e a Áustria --vitórias por 2 a 0 e 3 a 0, respectivamente.

Fernando Lázaro e Matheus Bachi assistiam ao jogo de um ponto alto dos estádios e repassavam as informações em tempo real para Cleber Xavier e Sylvinho, que ficaram no banco de reservas.

"O jogador precisa dessas informações. A comissão passa e tentamos melhorar, finalizações, passes. Acho super importante termos esses números. Às vezes são vídeos, outras são conversas individuais. O jogador tem que saber o motivo para fazer as coisas", disse Paulinho, que aprova o trabalho dos analistas.

No treino desta quarta-feira (13), três funcionários contratados pela Fifa ficaram em cima de um prédio vizinho ao campo de treinamento da seleção observando a movimentação. 

De binóculos, eles procuravam drones, que poderiam ser usados por adversários para estudar o ensaio do time comandado por Tite. 

O grupo tinha autorização para "abater" os drones. Eles bloqueariam a frequência do aparelho.

O Grêmio utilizou um drone durante todo o ano passado para monitorar alguns adversários, inclusive fora do país. O Grêmio conquistou a Libertadores de 2017.

A comissão técnica da seleção brasileira ainda tem outros três analistas de desempenho que vão trabalhar como observadores técnicos, ou seja, os antigos espiões: Maurício Dulac, Carlos Bressane, o Dudu, e Bruno Baquete, que coordena a análise de desempenho do Atlético-PR.

Baquete terá a missão de acompanhar os jogos do Grupo F, que é composto por Alemanha, México, Suécia e Coreia. Se passar pela primeira fase, a seleção enfrentará um dos quatro adversários nas oitavas de final. Ele já vinha acompanhando a atual campeã mundial.

A comissão técnica da seleção brasileira analisa todos os países do Mundial pelo menos desde outubro do ano passado. A CBF contou com a ajuda do departamento de análise de desempenho dos clubes que estavam na Série A de 2017. O Flamengo foi o único que não participou.

A divisão foi feita por sorteio. Os profissionais do Grêmio analisaram a Suíça, rival do dia 17 em Rostov. Já integrantes do departamento do Avaí estudaram a Costa Rica, adversário do dia 22.

O Sport, por sua vez, foi o responsável por preparar o relatório da Sérvia, último rival da primeira fase, em jogo marcado para o dia 27.

Os profissionais dos três times se encontraram com a comissão técnica da seleção brasileira mostrando os relatórios durante o período de preparação na Granja Comary no fim de maio.

"Montamos um modelo de relatório que contempla a questão tática dos adversários como um todo, principalmente a forma de jogar e a análise individual dos atletas. Além do relatório, os analistas mostraram vídeos exemplificando as situações de jogo, como ilustração do que está no documento", explicou Lázaro.

A seleção brasileira usa observadores técnicos desde a Copa do Mundo de 1970. Antes, as informações com o destaque de cada time e o lado forte e fraco eram anotadas em papéis e repassadas para as comissões técnicas.

Jairo Santos, que trabalhou como observador técnico da CBF por 30 anos, contou recentemente que o Brasil não sabia como a Holanda jogava em 1974. O time holandês liderado por Rinus Michels ficou conhecido como "Laranja Mecânica" e sagrou-se vice-campeão mundial.

Em 2002, o espião do pentacampeonato foi Gilson Nunes. Ele tentou entrar no treino da Turquia como jornalista, mas foi barrado. Logo depois, a federação turca permitiu a entrada desde que seu treinador pudesse assistir à atividade de Luiz Felipe Scolari. 

Em 2014, a seleção teve dois ex-jogadores como observadores: o ex-volante Gallo e o zagueiro pentacampeão Roque Júnior.

Transição defensiva: caracteriza-se após a perda da bola em ação ofensiva (posicionamento preventivo, local da perda)

Transição ofensiva: caracteriza-se quando uma equipe recupera a bola (zona de recuperação da bola, atitude pós-recuperação)

Bolas paradas: é analisado se a marcação é individual ou por zona, quantos jogadores estão na área

Modelo de jogo: qual a formação tática utilizada

Análise individual: características positivas e negativas

Momento ofensivo: iniciação, chegada ao último terço e oportunidades de gol

Movimento defensivo: característica de marcação, recuperação da bola (local) e oportunidades do adversário

17/06 â?" Domingo, às 15h
Copa do Mundo
Brasil x Suíça â?" Rostov-do-Don, Rússia
Na TV: Globo, SporTV e Fox Sports

22/06 â?" Sexta-feira, às 9h
Copa do Mundo
Brasil x Costa Rica â?" São Petersburgo, Rússia
Na TV: Globo, SporTV e Fox Sports?

27/06 â?" Quarta-feira, às 15h
Copa do Mundo
Sérvia x Brasil â?" Moscou, Rússia
Na TV: Globo, SporTV e Fox Sports

Fonte: FOLHA

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