20 de maio de 2018 às 02:00

Vinhos deixam de ser pomposos e voltam a encantar

Vinhedo na região de Chablis, na França Konstantin Kalishko Vinhedo na região de Chablis, na França   

Desta vez não tem comida, só umas coisas para acompanhar a bebida. Eu me esqueço que sou, principalmente, jornalista de vinhos.

Tinha me cansado do tema, os vinhos estavam muito pomposos, todo mundo seguia tabelinhas de safras (a coisa mais inútil do mundo) e só falava de grandes rótulos, de nomes importantes. Foi me dando uma melancolia. Tirei o ano passado como sabático, parei de prestar tanta atenção ao tema. Mas a reviravolta já estava acontecendo e percebi agora.

As pessoas gostam de orgânico, natural, porque é mais saudável, ou algo assim. Acho que elas têm razão. Mas ninguém vai se salvar ou viver mais por causa de uma taça de vinho. Vinho não é remédio, é prazer.
Comecei a gostar de biodinâmica e de seus primos (naturais, orgânicos) quando senti nos vinhos alguma coisa mais saborosa, menos igual. Não estou falando do artesanal, há bons vinhos produzidos em grande escala, aquele fetichismo de “ele fez só 280 garrafas numeradas” não me pega. Sempre estou ocupado com o sabor, quando falo de comida ou de bebida.

O que me reanimou é que os vinhos voltaram a encantar, deixaram o apolíneo de lado, a foto imprescindível na rede social do “big name” caríssimo, e reencontraram Dionísio numa esquina qualquer.
Semana passada estive no Jardim dos Vinhos Vivos. Fui falar sobre a uva chenin blanc. Abri algumas garrafas que trouxe na mala da África do Sul e mais duas da importadora Wine4U que foram destaque na coluna. Expliquei um pouco da região de Swartland, dos produtores que foram para lá, só com vontade de extrair belos líquidos de vinhedos muito antigos, quase abandonados.

A geografia do vinho é muito fascinante e não tem nada de nerd em ver o rio, a montanha, o chão pedregoso ou o solo branco de calcário e entender como aquilo afeta o que está na garrafa.
O Jardim não é metafórico â?”é um quintal arborizado, com mesinhas, conduzido por um casal que vive de vinhos, de falar deles, de explicá-los, de vender a preço das importadoras. O sonho do aprendizado em ambiente de pura informalidade.

Passei uma noite lá. No meio da prova dos chenins blancs, os presentes resolveram colocar um francês no meio, do Loire. E aí não parou mais. Começaram a abrir garrafas, tinha vaquinha para comprar ou alguém oferecia uma na própria conta. 

Teve Thomas Pico, um cara que está revirando Chablis, na França, um Passetoutgrain de François Lamarche, trazidos pela nova importadora Juss-Millésimes, além de um entusiasmante Pipeño País de Roberto Henriquez. Foi uma festa por acaso, com pessoas que tinha acabado de conhecer, celebrando o vinho sem afetação.

É mais difícil ser Master of Wine que piloto de avião. São anos de estudos e apenas três centenas deles pelo mundo (o único de língua portuguesa é o afável paranaense Dirceu Vianna Junior).

Pois um escocês doidão chamado Norrel Robertson conseguiu. Em lugar de dar palestras, escrever livros ou ir para o comércio de vinhos, como os outros, desapareceu numa região esquecida de Aragão, na espanhola Calatayud. Teimou com vinhedos antigos da uva garnacha, brigou com a denominação de origem e faz vinhos, desde 2003. 

Ele é irreverente. Os rótulos estão virando cult, mas não adiantaria nada se os vinhos não estivessem à altura do atrevimento. Decidiu que a região era parecida com Rhône, na França, e o seu vinho Dos Dedos de Frente comprova a tese (syrah com viognier). Mas o assunto dele é mesmo a garnacha, que o livrão de castas afirma, por evidências genéticas, ser de origem ibérica (outra evidência para o Rhône espanhol, pois é a uva dos Châteauneuf-du-Pape. Avisem para eu parar quando ficar enfadonho!).

Provei seis garrafas que acabam de chegar via Evino e selecionei quatro. A garnacha do El Escocés Volante, como se chama a vinícola, é mesmo especial. Papa Luna é de alta potabilidade, um vinho suculento. Es Lo Que Hay, desculpando-me pela hipérbole, é um vinhaço â?”amplo, majestoso, resumo de tudo: região, uva e personalidade do autor.

Fonte: FOLHA

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